Antes de examinar o documento – cuja superficialidade e partidarismo ideológico causam verdadeira perplexidade,- e justificamos amplamente as reservas quanto aos riscos de que haja interferência e violação aos direitos Soberanos dos Estados subscritores – é fundamental precisar como é o “Comitê para os Direitos da Infância”. Trata-se de um corpo de dezoito especialistas, eleitos por Estados que tenham aderido à Convenção, cujas recomendações não são juridicamente vinculantes. Trata-se de uma das inumeráveis “comissões de especialistas” das Nações Unidas, relacionadas ao “Manual Cencelli” da ONU, que dá as diretrizes para a atuação dessas comissões em todos os Estados.

Para que se tenha uma idéia, um dos dezoito membros foi nomeado pelo governo da Síria e outro foi como representante da Arábia Saudita, países que não são exemplo dos Direitos Humanos em geral, muito menos dos direitos de meninos – e meninas – em especial. A personalidade mais proeminente e influente do famoso Comitê é a peruana Susana Villarán, prefeita de Lima e católica “adulta” em travar constantes polêmicas com os bispos de seu país, em particular com o Cardeal Arcebispo de Lima, Monsenhor Juan Luis Cipriani, devido ao asseverado ativismo dela em favor do “matrimônio” homossexual, da ideologia de gênero e do aborto.

Apoiadora “benemérita” do “orgulho gay”, La Villarán está sob os holofotes por estar sempre atacando a Igreja em matérias como o aborto e homossexualidade, e porque praticou um “casamento simbólico” – o “casamento homossexual” no Peru ainda não é permitido – com pares de pessoas do mesmo sexo, incluindo sua parceira e colaboradora próxima Susel Paredes com a “noiva” Carolina. Provocativamente, as cerimônias foram realizadas no Parque do Amor, em Lima, Peru, onde tradicionalmente o noivo e a noiva são fotografados sob a famosa estátua “O Beijo”, do escultor Victor Delfin.

Para esclarecer os motivos que podem levar a Santa Sé a agir em relação a isso, leiamos juntos o bizarro documento. O Comitê observa uma série de áreas nas quais a Santa Sé “não está em conformidade com a Convenção sobre os Direitos da Infância” , e recomenda ao Vaticano as oportunas reformas. Vamos examinar as principais áreas.

Em primeiro lugar: a homossexualidade – assunto que nada tem a ver com direitos da infância, mas o relatório afirma que o Comitê da ONU se preocupa em tutelar “os adolescentes e crianças gays, lésbicas, bissexuais e transgêneros”.

Com a justificativa de defender precocemente essas crianças, a Comissão convida a Igreja a seguir “a declaração emitida pelo Papa progressista Francisco em julho de 2013”, o famoso: Quem sou eu para julgar – o que, porém, se referia às pessoas que, certamente, nunca devem ser julgadas, e não a leis ou a comportamentos, muito menos a assertiva do papa se destinava a repudiar “documentos ou declarações anteriores sobre a homossexualidade”. Ademais, não é convincente a explicação sobre como essa temerária interferência no campo da doutrina moral católica pode estar vinculada à competência de um “Comitê sobre os Direitos da Infância” .

Segundo: igualdade entre homens e mulheres. A Santa Sé é criticada porque não usa sempre uma “linguagem inclusiva” e porque fala de “complementaridade” do papel masculino em relação ao feminino e vice-versa, o que implica que os dois papéis são diversos, o que é contrário à ideologia que o Comitê quer impor.

Terceiro: o castigo corporal. Depois de uma menção às “Casas de Madalena” [1],da Irlanda, que mostra como os membros da Comissão passam muito tempo no cinema, e que viram o péssimo filme de Peter Mullan – à parte as imprecisões, o tema não parece colocar uma questão de pungente atualidade, visto que a última dessas casas foi fechada em 1996 . O relatório se opõe a qualquer forma de punição corporal, não só com a componente pedagógica – o que pode ser em parte compartilhado – mas também à possibilidade de punições na alçada da própria teologia. Queremos que a Santa Sé “certifique-se de que uma interpretação da Escritura que não justifica a punição corporal se reflete na doutrina da Igreja e […] seja incorporada no ensino e na educação teológica.” Sem entrar nos méritos da discussão propriamente teológica, é interessante notar que o Comitê se arroga o direito de ditar para a Santa Igreja como a Sagrada Escritura deve ser interpretada.

Quarto: a pedofilia. Mediante completa ausência de notas e referências precisas, o comitê fala de “dezenas de milhares” de crianças que são vítimas de padres pedófilos. Seria interessante saber de onde vêm essas estatísticas, assim como saber de onde procedem certas informações contidas no relatório de uma suposta intervenção de 1997 do núncio apostólico na Irlanda, o arcebispo Luciano Storero (1926-2000), em função de os bispos irlandeses terem supostamente escondido padres pedófilos das autoridades civis. Os dados vêm de um ataque feito pelo governo irlandês em 2011 à Santa Sé, cheia de imprecisões, que a Santa Sé – como já documentado tempestivamente nesta coluna – respondeu de modo detalhado.

Lembrem-se: este jornal está sempre aberto a qualquer discussão acerca de padres pedófilos, pois, infelizmente, como nos foi ensinado pelos Papas Bento XVI e Francisco, a pedofilia no clero é um drama real, não inventado, que não é para ser escondido, cujas causas devem ser investigadas, mas que decorrem essencialmente da propagação de uma moral negligente e progressista nos seminários e entre os sacerdotes.

No entanto , o relatório contém estatísticas folclóricas e acusações indiscriminadas. Louva medidas introduzidas pela Santa Sé em 2013 , mas esquece de todas as anteriores , numa tentativa equivocada de opor o Vaticano quando sob o pontificado do Papa Bento XVI ao atual, que é o do Papa Francisco . Acima de tudo, eles se esquecem de dizer que as medidas punitivas adotadas têm funcionado , e podem ser de fato um modelo para outras instituições que têm os mesmos problemas de abuso de crianças e que são muito menos vigorosas do que a Santa Sé para combatê-los .

Desculpo-me pela inserção publicitária, mas eu devo mencionar o livro recém-publicado que eu escrevi com o psicólogo Roberto Marchesini “Pedofilia. Uma batalha que a Igreja está ganhando” (Sugarco , Milão 2014) , no qual se pode encontrar informações e números precisos.

Quinto: o aborto. Depois de ter evocado o caso lamentável da menina brasileira de nove anos que teve um aborto em 2009, o Comitê “requer urgentemente que a Santa Sé reconsidere a sua posição sobre o aborto e modifique o Canon 1398, do Código de Direito Canônico, com a finalidade de precisar em quais circunstâncias o aborto deve ser permitido.” A respeito dessa “urgência” exigida pelo comitê da ONU já respondeu o Papa Francisco na carta Apostólica Evangelium Gaudium: <<ilude-se quem espera que a Igreja vá mudar sua posição acerca dessa questão. Eu quero ser completamente honesto quanto a isso. Essa não é uma questão que está sujeita a supostas reformas ou “modernização”. Não é progressista querer resolver os problemas com a eliminação de uma vida humana >>.

Sexto: a contracepção. A Santa Sé é convidada a “garantir que os adolescentes tenham acesso à contracepção”, que não seria uma alternativa ao aborto [2], visto que contemporaneamente deve ser garantida a “saúde reprodutiva”, o que, como vimos, implica mudar a doutrina católica sobre o aborto.

A Igreja – o temos dito – há muito reconheceu a responsabilidade de certo número de padres e bispos no vergonhoso drama da pedofilia, e executou medidas drásticas que tem se revelado eficazes. Este documento, no entanto, é a prova de como a tragédia de padres pedófilos é usada como uma desculpa e como um porrete para atacar a Igreja Católica e impor-lhe “com urgência” a mudança de sua doutrina no que diz respeito à homossexualidade, o aborto e à contracepção, contando com comitês de “especialistas” politicamente corretos até mesmo para a interpretação da Sagrada Escritura.

Em 18 de novembro de 2013, citando o romance “O senhor do Mundo”, de Robert Hugh Benson (1871-1914), o Papa Francisco denunciou a tentativa totalitária de impor à Igreja a “hegemonia global” do “pensamento único”. Os poderes constituídos – que certamente incluem comitês de certas organizações internacionais – são contados, disse o Papa, exigindo que “precisamos ser como todos os outros, temos que ser mais normais, como todo mundo, com este progressismo adolescente”. Então, infelizmente, segue a história : “para aqueles que não se adaptam ao pensamento único que é chegado, como nos tempos dos antigos pagãos, é imposta a pena de morte, os sacrifícios humanos” . Está errado quem pensa que isso é coisa de um passado distante : “Mas vocês – disse o Papa – pensam que hoje não são feitos sacrifícios humanos? Se fazem muitos e muitos ! E existem leis que os protegem.”

É porque a Igreja se opõe a essas leis que, usando a tragédia –verdadeira – da pedofilia entre o clero como um ponto de partida e como um pretexto , fazem bater-lhe com ataques que agora estão se tornando intoleráveis.


Notas:

[1] Casas de Magdalena são reformatórios para moças cuja administração foi assumida pela Igreja Católica em meados do séc.XX e que acabaram por se transformar em lavanderias lucrativas. Supostos depoimentos de ex-integrantes teriam motivado o cineasta Peter Mullan a dirigir o filme “The Magdalene Sisters” (Irmãs de Madalena),em português “Em nome de Deus”. O filme é uma peça de propaganda anticatólica repleta de calúnias rancorosas, mas aclamada por Cannes. (Nota do tradutor)

[2] A contracepção é desestimulada pela Santa Sé por ser uma espécie de aborto. (nota do tradutor)

Publicado no La Nuova Bussola Quotidiana.

Tradução: Dante Mantovani